quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Prestação de contas - Inspiração à Beira do Abismo

Conforme compromisso público assumido em outubro/2008, no lançamento do livro Inspiração à Beira do Abismo, eu venho doando a entidades assistenciais e educacionais de Vacaria/RS e região os valores correspondentes aos lucros obtidos com os livros já vendidos.

Os valores atuais das doações são:

1.250,00 APAE Vacaria
1.160,00 Projeto Pandorga, do Atelier Livre de Vacaria
1.300,00 CEDEDICA
600,00 Asilo Santa Isabel
705,00 Escola Municipal Duque de Caxias
500,00 APAE Lagoa Vermelha
600,00 A RAMPA - Entidade de Caxias do Sul que apoia deficientes físicos
415,00 Outras pequenas doações

6.530,00 Total

Obs.: todos os valores têm comprovação.

Com a comercialização dos aproximadamente 400 exemplares que ainda estão à venda, espera-se que as doações fiquem entre R$10.000,00 e R$12.000,00, conforme consta na contracapa do livro.

Agradeço a todos os amigos leitores que colaboraram para que meu humilde projeto chegasse a esse ponto, ainda modesto, mas que certamente fará alguma diferença na vida de quem, por algum motivo, tem sido menos favorecido pela sorte.

Contato: jprandi@ibest.com.br

sábado, 21 de novembro de 2009

O drama de Daniela

O motivo que me fez ficar 45 dias sem postar neste humilde blog é o mesmo que me faz postar agora.
Até poucos dias atrás, vivi com minha família um drama que nos trouxe grande apreensão. No centro desse drama, minha filha Daniela!
A Dani é uma menina com necessidades especiais. Ela tem dificuldades motoras, na fala e de aprendizagem. O nome genérico dado ao problema pelo neurologista é Transtorno Global do Desenvolvimento. Temos tentado por vários meios estimular a evolução da Daniela, que continua com alguns anos de atraso, mas tem tido bons avanços.
Há cerca de três meses e meio, porém, um novo drama surgiu, para nos encher de incertezas e medos: ela começou a mancar. Procuramos especialistas em Caxias do Sul, cidade com mais recursos que Vacaria, minha cidade. Descobrimos que ela tinha grande desvio na coluna, o que provavelmente explica seu caminhar irregular.
Entretanto, um dos exames mostrou algo mais: um tumor na glândula suprarrenal esquerda. Nenhum exame foi capaz de esclarecer sobre a gravidade do caso.
Imaginem nossa angústia, imaginando que o tumor podia ser maligno, que nossa filhinha corria risco de morte. No entanto, precisávamos ser fortes, manter a serenidade, passar confiança para ela.
Uma equipe de médicos dedicados e competentes decidiu pela remoção da glândula. Passamos quase um mês no Hospital Pompéia, eu e minha esposa nos revezando na companhia da Dani, engolindo nossos temores para influenciar positivamente seu ânimo. Conseguimos, também com ajuda das orações de inúmeros amigos, influenciar inclusive a nós mesmos, tanto que eu adquiri uma quase-certeza de que o tumor era benigno. Mesmo assim, temia uma cirurgia complicada como a que aguardava minha filha, pois o risco de 5% mencionado pelo médico é altíssimo na cabeça de um pai.
A Daniela sabia que faria a cirurgia, mas não teve muita noção das possibilidades. Um dia, porém, cortou-me o coração ouvir ela dizendo, ainda que meio de brincadeira:
— Pai, eu vou morrer?
Ainda que eu estivesse condicionado a pensar positivo, ainda que eu sorrisse, minha voz se embargou ao garantir que não.
Passamos horas terríveis enquanto a cirurgia tinha andamento, mas tudo transcorreu perfeitamente. Em cinco dias, minha filha estava em casa.
Três dias depois, o médico me falou que a biópsia, embora ainda não concluída, apontava para um tumor benigno. No entanto, falou que ela, quando bebê, teve câncer (neuroblastoma) na glândula suprarrenal, e que, por regressão espontânea, o tumor virou benigno (ganglioneuroma). Essa regressão ocorre raramente, sempre entre a concepção e os 6 meses de idade. Resumindo, ela tinha essa anomalia há mais de 13 anos!
Dá um arrepio só em pensar que ela teve uma doença tão grave e ficou curada sem sabermos de nada. Mas que bom que Deus quis assim!
Não posso deixar de agradecer a todos os amigos, virtuais ou não, que rezaram e torceram por ela, e que nos deram palavras de apoio e de coragem. Também não posso deixar de agradecer, de jeito nenhum, às forças superiores e generosas que reverteram, no passado, uma doença gravíssima, e que guiaram a mão dos médicos na cirurgia.
Agora, a caminhada continua. Precisamos corrigir a coluna de nossa menina e estimular seu desenvolvimento.
Estamos felizes, pois o pior passou.
Muito obrigado a todos!

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Rios Paralelos

Esta poesia foi publicada parcialmente em meu livro Inspiração à Beira do Abismo, no conto Todas as Dores do Mundo. Pela tristeza que o caracteriza, tem tudo a ver com o poeta H. Zimmer, protagonista do conto.

RIOS PARALELOS

Têm por foz a mesma dor
De agonia de um amor,
Em suas margens não há flor,
Lentamente se deslocam
Até inquieto mar – o peito –
Sempre sós, pois não tem jeito:
Paralelos são seus leitos;
Lado a lado, não se tocam.

Não há rio nem mar eterno.
Só, talvez o céu e o inferno.
Vem o outono após o inverno.
Primavera não tem vez.
Erosão levou vontade,
Todo amor, toda vaidade.
Leitos secos, sem saudade,
Paralelos na aridez.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

INVASÃO - Contos de Ficção Científica


A Giz Editorial acaba de publicar meu conto de Ficção Científica intitulado Judas, na antologia Invasão, que conta com a participação de mais 24 autores do gênero. Veja a sinopse do livro:
"Alienígenas, monstros, naves espaciais, gárgulas, robôs, escravistas e viajantes do futuro. O que aconteceria se a terra fosse invadida por seres hostis? Como você agiria?
Isso e um pouco mais é o que o leitor encontrará no livro Invasão, uma obra escrita por alguns dos melhores autores de ficção científica nacional.
Mas atenção, antes de fechar estas páginas, um aviso: esteja preparado, reflita, pois um dia isso poderá tornar-se realidade..."
Quem tiver interesse em adquirir, é só manter contato comigo: jprandi@ibest.com.br.
Valor: R$20,00 - frete grátis.
Um forte abraço a todos!

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Projeto literário e solidário

Faltava divulgar aqui no blog que, conforme consta na contracapa, Inspiração à Beira do Abismo, além de ser naturalmente um projeto cultural, tem uma faceta social. Todos os lucros serão doados a entidades assistenciais e educacionais da região de Vacaria.
Muita gente vem me questionando sobre como isso vai funcionar. Basicamente, é o seguinte: dos 1.000 exemplares publicados, 920 devem ser vendidos (os outros serão doados à SMEC de Vacaria ou destinados à divulgação). A venda dos 920 exemplares a R$20,00 resultaria em um montante de R$18.400,00. Desse montante, vou retirar o valor das despesas com publicação, lançamento, divulgação, comissão para livrarias ou vendedores, remessa via correio, etc. O resto, vai ser doado, sendo que assumi o compromisso de que o total não será inferior a R$10.000,00.
Alguns valores já foram doados a entidades de minha cidade, Vacaria/RS, destacando-se o colégio municipal Duque de Caxias (RS735,00) e o Atelier Livre, com seu Projeto Pandorga, que oferece aulas de artes plásticas a crianças carentes (R$560,00). Há previsão de apoio financeiro em breve à APAE e ao CEDEDICA, ambos de Vacaria, e a A Rampa, de Caxias do Sul.
O que ganho com isso? Bem, isso tem me ajudado a vender alguns exemplares, talvez na mesma proporção em que impede a venda de outros, por impossibilitar uma redução no preço do livro. Mas então, o que ganho? Sensação de dever cumprido, de não estar alheio às dificuldades de pessoas menos favorecidas pela sorte. Quem pensa em mundo melhor vai me entender.

Leiam Inspiração à Beira do Abismo, emocionem-se, inspirem-se e divulguem!

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Inspiração à Beira do Abismo - Adquira aqui


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INSPIRAÇÃO À BEIRA DO ABISMO

Contos
Jocir Prandi
136 páginas
Apresentação de Moacyr Scliar

São doze contos emocionantes, realistas, humanos. Em Recanto, cidade do interior gaúcho, no outono de 1998, num ambiente comum marcado por vícios e força de vontade, medo e coragem, arrogância e humildade, tristezas e alegrias, egoísmo e solidariedade, personagens debatem-se em busca da felicidade.

Leia em postagens anteriores a apresentação de Moacyr Scliar, as sinopses dos contos e os primeiros capítulos do conto Passarinho.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Sinopses dos contos - Inspiração à Beira do Abismo

SARJETA: Esponja é um joão-ninguém, alcoólatra inveterado. Seu destino parece traçado de forma irremediável. Nem a presença amiga da prostituta Dina, nem o surgimento de um vira-lata capaz de mexer com seu lado humano, parecem suficientes para interferir em sua trajetória para a degradação absoluta. Então, surge mais alguém em sua vida...

A IDADE DE HELENA: Ao retornar à terra natal, o protagonista relembra as mulheres que marcaram sua vida ali, e descobre que cada uma, ao contrário dele, encontrou seu caminho para uma relativa felicidade. Inclusive Helena, “tão comportada, tão sem assunto, tão sem graça, tão velha”. Nesse reencontro com o passado, ele irá descobrir porque também Helena deixou sua marca, e bem mais relevante do que ele pensa.

O PASSADO EM PAUTA (o mais elogiado de meus contos): O grande tenor Romildo Castelli deixou Recanto quando adolescente, em busca de sucesso. E alcançou tudo que poderia almejar... menos a felicidade. Ao partir, havia jurado jamais sentir saudades do lugar ou da família que não o havia apoiado. E cumpre a promessa... até o dia em que descobre que a mãe tem pouco tempo de vida. A partir daí, o astro repensa toda a sua vida e decide se redimir e buscar uma reaproximação. Mas a forma com que o faz é absolutamente insólita

DEPOIS DO FINAL FELIZ: No aniversário de seu casamento, Estela passa em revista os doze anos de vida em comum. Apesar de o balanço ser negativo, ela decide resgatar a felicidade inicial, mas descobrirá o quanto isso é difícil.

TODAS AS DORES DO MUNDO: H. Zimmer, poeta da dor e do sofrimento alheio, freqüenta ocasionalmente o Bar da Esquina. Quando a filha do proprietário pede como presente de casamento uma poesia com o título “Mar de Rosas”, falando das boas coisas da vida, ele se mostra ainda mais amargo que de hábito. A insistência, porém, é tal, que ele acaba aquiescendo: “Queriam um mar de rosas? Pois iriam ter. Mas seria o seu mar. Seriam as suas rosas.”

PASSARINHO: Lu leva uma vida de dedicação extrema ao trabalho e a atividades assistenciais. É sua forma de fugir de dramáticas recordações que a perturbam. Quando o homem que passou sete anos na prisão sob acusação de a ter violentado retorna a Recanto, ela percebe que não poderá fugir eternamente do passado, e que o presente também encerra muitos riscos. Até porque os maiores inimigos podem estar dentro de sua própria casa.

VAZIO: Ele acorda no meio da noite e, sem estímulos aos sentidos, sente um grande vazio a oprimi-lo. Mas, passados alguns minutos, vai se apercebendo do valor das pequenas coisas. (Mini-conto bastante elogiado por Moacyr Scliar).

MÃOS E ALMAS: A bordo de um velho ônibus, após flagrar a traição de sua noiva, o protagonista luta desesperadamente para ocultar sua angústia. Busca distração observando a paisagem às margens da estrada, ou as mãos de outros passageiros, adivinhando-lhes os dramas. Entretanto, acaba por observar sua própria mão...

INSPIRAÇÃO À BEIRA DO ABISMO: Jovem em profunda depressão, devida, sobretudo, à falta de adaptação ao trabalho, sai de seu quarto, como para fugir de si mesmo. Acaba à beira de um abismo, onde, numa brincadeira sinistra (forma de desprezo às crenças de um mundo que tanto o faz sofrer), ele se imagina tentado pelo diabo, que lhe sugere saltar para a morte.

CANÇÃO PARA LUZIA: Luzia, moça humilde do sítio, vive momento especial diante do assédio de Alex, o filho do prefeito. Após viver uma “noite de princesa” com ele num baile, ela o espera em casa. Enquanto isso, recebe de um jovem vizinho um presente singelo: uma fita cassete com uma canção em sua homenagem. Antes que ela ouça a canção, Alex chega, e Luzia fica sob a influência de vaga mas perturbadora curiosidade, que pode ter importância fundamental na decisão que vai tomar.

NUNCA É TARDE PARA CHORAR: Cansada do desconforto de cuidar do pai inválido, a protagonista desabafa, criticando ferozmente o machismo dele e dos filhos dele. Seu pai já não pode falar, nem fazer qualquer gesto, e as lágrimas são a única mensagem que consegue emitir, na tentativa de se redimir.

SÓ: A solidão sempre marcou a vida do protagonista. Embora se reconheça responsável por isso, ele sente-se incapaz de reverter a situação e se aproximar das mulheres. Numa noite em que a solidão tortura-o sobremaneira, a chuva recoloca em seu caminho alguém a quem ele desprezou no passado. Agora, ele tem em suas mãos a possibilidade de decidir: ou vence o orgulho e aceita a oportunidade, ou afunda de vez na solidão.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Um modesto experimento poético

SILÊNCIO

Dou-te um último beijo de língua
Portuguesa e, após, que se extinga,
Já sem rimas de correspondência,
A ilusão, que agoniza à míngua,
Pois não juras mais céus, universos,
Nem me beijas, febril, em teus versos,
Não versejas sequer por clemência.
De tua doce e rimada eloqüência,
Restam cinzas em flocos dispersos.

Sei, cansaste de estrofes apenas,
De românticas, puras, a obscenas.
Queres corpo; sou alma somente;
E ao silêncio este poeta condenas.
Porém, a alma é imortal como a arte
E virá com o vento abraçar-te,
Num silêncio rimado, fluente,
Seduzir-te, lançar a semente
Da poesia em teu útero, amar-te.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

O árduo caminho do escritor iniciante

Se alguém imagina que a trajetória de um escritor em busca de conquistar leitores é simples, está profundamente equivocado. É claro que é fundamental que sua obra tenha qualidade literária, mas nem isso basta. Alguém dirá: “É necessário ter o aval de um ‘padrinho’, alguém cujo nome seja reconhecido no mundo da literatura”. Pois eu digo que nem assim o caminho é fácil.
Vejam meu caso: passei anos escrevendo, lapidando um estilo e aprimorando meus contos. Enviei-os ao imortal Moacyr Scliar, acreditando que ele não disporia de tempo para dar atenção a mais um pretenso escritor, mas, para minha surpresa, eis que um dia recebo a resposta: ele havia gostado muito, dispondo-se inclusive a escrever a apresentação para o livro. Várias pessoas me disseram que a partir daí tudo seria fácil, mas infelizmente constato a cada dia o engano dessa suposição.
Devo aqui reconhecer alguns erros e deficiências que tornam as coisas mais difíceis em meu caso. Minha preocupação social levou-me a agregar ao projeto literário um projeto solidário: a doação dos lucros a entidades assistenciais e educacionais de minha região. O pior foi ter estipulado um valor mínimo para o total de doações, ficando impossibilitado de reduzir o preço do livro. Para que a doação seja substancial, diminuí custos, optando por uma editora que cobra preços acessíveis mas não trabalha com divulgação e distribuição. Assim, eu, sem vocação para essas atividades, dedico-me hoje ao complicado esforço para colocar meu trabalho na vitrine, para conquistar leitores que nunca ouviram falar em Jocir Prandi nem em "Inspiração à Beira do Abismo".
Ando um pouco desanimado com essa fase pós-publicação, mas não alimentei um sonho desde a infância para desistir diante dos primeiros obstáculos. Tenho muitas ideias e jamais desistirei de recriar o mundo através da literatura. Os erros servem para ensinar, e o segundo livro servirá com certeza para corrigir a trajetória em direção a meu ideal. Vai chegar o dia em que não vou mais ter de pensar muito em divulgação e vendas, e sim em fazer o que um escritor deve fazer: escrever, criar emocionar-se e emocionar.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

O que Moacyr Scliar fala sobre Inspiração à Beira do Abismo

APRESENTAÇÃO
Inspiração à Beira do Abismo é, antes de mais nada, uma grata surpresa. Trata-se de um livro de contos e o conto é um gênero muito difícil, sobretudo por causa de sua enganadora facilidade. Mário de Andrade uma vez disse que conto é tudo aquilo que o autor quer chamar de conto e muitos contistas, sobretudo os jovens, acharam que esta definição, vinda de um autor consagrado, permitia qualquer tipo de aventura ficcional. Mas não é assim. O conto é um importante gênero literário e requer, de quem nele se aventura, conhecimento, disciplina, rigor. Pois bem, Jocir Prandi tem todas estas condições e ainda outras. Para começar, sabe contar uma história, sabe prender o leitor com sua narrativa. Tem um seguro domínio da palavra, o que é fundamental, pois a palavra é o instrumento de criação estética do escritor. Seus personagens respiram autenticidade, como vemos, por exemplo, em Sarjeta, pungente retrato de nossa realidade. E finalmente não lhe falta um toque lírico, poético, que podemos detectar nesta pequena e esplêndida peça literária chamada Vazio. São umas poucas linhas, mas a densidade de emoção e de beleza ali é imensa. Pensem numa frase como “meus botões puxando conversa”, digna de um Mário Quintana, na medida em que inverte de forma inusitada o habitual “conversando com meus botões”. Mais adiante, e como uma espécie de clímax, descobrimos que há “no sono ou na vigília, sonhos, muitos sonhos para sonhar”. A fórmula perfeita para uma vida bem vivida. Uma lição que Jocir Prandi nos ensina com competência, com afeto, com generosidade.
Moacyr Scliar é autor de 80 livros em diferentes gêneros, colaborador de numerosos periódicos no país e no exterior e membro da Academia Brasileira de Letras.

sábado, 23 de maio de 2009

Três primeiros capítulos do conto Passarinho, publicado em Inspiração à Beira do Abismo, meu primeiro livro.

PASSARINHO

I.

Horário de pico, trânsito caótico, todos no mesmo lugar ao mesmo tempo. No lusco-fusco, garoa, faróis, baixa visibilidade. Na Érico Veríssimo, os veículos passando, um a um, sem trégua. Na Casimiro, nosso carro esperando, o motor roncando suave, o limpador do pára-brisa ativo, o motorista, meu irmão, impaciente. Ao lado dele, eu, calada, observando as gotas de chuva misturando-se nos vidros, nos paralelepípedos, no branco encardido da faixa para pedestres, nos cartazes de propaganda política. 4 de outubro estava longe, mas a campanha já mudava a cara da cidade. Lula e Olívio disputando lugar com FH e Britto em paredes, postes, urnas, cargos públicos.
Mas eu olhava de modo vago. A cabeça ainda não deixara a Recanto Construção e Imóveis. Computador, software de arquitetura em 3D, alguns projetos em andamento, um desmembramento de terreno na fila de espera, algumas ART a registrar no CREA, uma licitação de relativa importância. Ah, tinha de agendar uma conversa com o capitão Guedes, para adequar um projeto às normas de segurança. Afora isso, só me importavam as obras assistenciais: Campanha do Agasalho 98, Liga Feminina de Combate ao Câncer, SOS Inverno. Eis meu mundo, do qual tinha aprendido a gostar, dedicada ao extremo. Fuga, sublimação.
A garoa prosseguia desde o meio-dia. Eu tinha pena dos pedestres, não sem certo remorso por estar no conforto de um carro moderno e por vê-los molhados até a cintura, passando frio, dando um jeito com guarda-chuvas de “um e noventa e nove”. Ou com um pedaço de papelão, como o homem mal vestido que se aproximava.
Pobre gente! Eu fazia o possível para amenizar as desigualdades. Agora ainda mais, sendo meu irmão Roger o vice-prefeito. Mas já vinha ajudando antes e continuaria depois. Sou atuante até hoje. Mais do que a maioria das pessoas, menos do que me pede a consciência.
O trânsito na Érico Veríssimo continuava intenso. Roger socava o volante. A paciência não era uma de suas virtudes, e as virtudes não eram comuns nele. O homem que se protegia com o papelão passava pela faixa para pedestres. Numa mão, um saco de estopa. Resguardava-o da garoa mais que a si mesmo.
Nisso, o trânsito na Érico deu uma folga. Roger quis atravessar, mas o homem estava no caminho. A buzina fez-se ouvir, e o pedestre olhou-nos. Foi aí que nós o reconhecemos, e ele a nós. Ficou espantado, tanto quanto eu. Roger foi o primeiro a reagir, e com fúria: acelerou! O homem arregalou os olhos e saltou para um lado, o carro passando a poucos centímetros dele. Rápido, mal se mantendo de pé no calçamento escorregadio, ele pegou o saco que tinha deixado cair e saiu correndo. O papelão ficou para trás. Além do cruzamento, Roger freou bruscamente. Quando olhamos para trás, o homem já tinha sumido.

II.

Águas passadas movem moinho. Seguem rio abaixo, ganham o mar, fazem-se vapor, depois gotas de chuva que se precipitam tal e qual lágrimas. Quando menos se espera, estão no mesmo rio, movendo as pás do mesmo moinho.
Lá fora, as gotículas frias da garoa. No banheiro, a água morna do chuveiro a me deslizar pelo corpo. Mas eu só sentia as águas salgadas do Arroio envolvendo-me os pés descalços, impregnando a areia, indo e voltando, indecisas como agora as lembranças.
No intervalo entre cada onda, distantes, risos e o compasso de uma marchinha de carnaval. João e eu nos pusemos a dançar, rindo da água que respingava ao impacto de nossos pés. Fugíramos do baile (e do preconceito), trazendo de lá apenas alegria e uma suave embriaguez.
Uma onda trouxe-me ligeira vertigem. Ele me amparou e nós rimos outra vez. Os raios da lua iluminavam nossos olhares correspondentes. Naquele instante, o baile ficou mais distante, e nós dois, mais próximos. Era a hora de algo acontecer, mas a insegurança colocou João a caminhar. Fui atrás dele, pus-me a seu lado, sonhos bons na cabeça, uma doce ansiedade agitando-me o coração. Ele me olhou outra vez, palavras a dizer, palavras que eu queria ouvir. Mas vieram só as ondas; palavras, não.
Não era difícil compreendê-lo. Ele, pedreiro, eu, universitária de futuro promissor. E filha do patrão. Para muita gente, essa diferença tinha bastante importância. Para os homens da família, muito mais. Em nome de certos valores, evitavam ao máximo a proximidade entre mim e qualquer empregado da construtora. Eu era um tanto rebelde, mas queria tanto bem a João desde a infância e não o queria expor. Por isso, ao menos aparentemente, eu me curvava à “lei” dos Menezes Dutra. Mas ninguém podia impedir olhares discretos, a doçura de um sorriso, palavras trocadas quando a oportunidade se oferecia e, muito menos, a magia de sonhos cada vez mais freqüentes e bem-vindos.
Na época, a construtora tocava duas obras no centro do Balneário Arroio do Silva, para amigos da família. João começava a se destacar em sua profissão e foi um dos pedreiros deslocados até lá. Aproximou-se o carnaval e também nossa família trocou Recanto pela praia.
O baile de carnaval era ao ar livre, aberto a todos. O momento era de alegria e a vigilância sobre mim afrouxou. Após o primeiro copo, nossa auto-vigilância também ficou de lado. Colocamo-nos lado a lado, copos nas mãos, olhando os foliões. Fomos entrando mais e mais no clima, liberando-nos para algumas palavras, depois olhares, mais adiante sorrisos, mão na mão, cabeça no ombro. Os comentários preconceituosos não tardaram. Minha família logo perceberia e tomaria providências. E o álcool decidiu por nós: se não podíamos ficar juntos ali, ficaríamos em outro lugar. E nos afastamos do povo.
A água continuava seu eterno vaivém. Nossos pés na praia, seus formatos moldando a areia, marcas que as ondas nunca apagaram por completo. Uma sensação estranha, mescla de alegria e medo, quase dor, invadia-me o corpo todo. Aquele sentimento tão antigo, mas tão novo na intensidade, tão profundo, mas tão suave na maneira de se manifestar, era bem mais do que eu esperava para aquela noite. No entanto, de repente, eu queria mais. Queria aquele sentimento como ele ainda não existia, em forma de palavras. Tudo para não pairarem mais dúvidas, embora eu não mais as cogitasse.
Segurei-lhe a mão, contive seu avanço. Ele hesitou, o olhar sempre tímido. Gaguejou algo ininteligível, não encontrando palavras. Depois, acreditou que não fossem tão necessárias. E, com certa brusquidão, como se lutasse contra a própria timidez, quis me beijar, definir tudo de uma vez. Fiquei assustada, recuei. Aquilo quebrava a seqüência suave e natural que vínhamos desenvolvendo. Ele avançou. Quando eu quis fugir, ele me segurou pelos braços. Tentei empurrá-lo, mas João era mais forte. Senti-me impotente, chocada. Num piscar de olhos, caía do “sétimo céu” aos “quintos dos infernos”. E desmaiei. A seqüência é muito vaga em minha lembrança. Tudo se mistura a pedaços de pesadelos que me marcaram a vida nos meses seguintes e que só superei mergulhando de corpo e alma no trabalho e na caridade. Quando voltei à plena consciência, a desgraça estava feita. Meus irmãos e o falecido pai espancavam João violentamente.
Águas passadas, mas moviam outra vez o moinho de minha vida.

III.

Ao sair do banho, notei um alvoroço na sala: – O quê? – Era a voz de Leo, o caçula. – O João Passarinho? Aquele que...?
– Você conhece outro?
– Mas tão cedo, Roger? O Hermes prometeu...
– Se o Hermes não tivesse tomado certas providências, o desgraçado teria saído antes. A Lei é suja. Não deu mais para segurar o passarinho na gaiola.
Passarinho. O apelido viera depois do julgamento. Durante o depoimento, João havia tentado falar comigo, emocionar-me, lembrando-me de um passarinho ferido que havíamos encontrado quando crianças. Antes de eu entender, o juiz exigira que ele se limitasse a responder às perguntas. E a tentativa só tinha servido à acusação para ridicularizá-lo.
– Maldito! – rosnou Leo. – E teve a ousadia de pôr os pés de novo em Recanto! Por que terá voltado?
– Boa coisa, não se pode esperar. Mas, se ele imagina que vamos ficar esperando... Vamos encontrá-lo e cortar-lhe as asas.
Senti um alvoroço dentro de mim. O que pretendiam fazer? João já havia cumprido sua pena. Enquanto não demonstrasse más intenções, tinha direito a viver em paz.
– Fique tranqüila, Lu: – falou Leo, percebendo minha presença – vamos dar um jeito nele.
– Não é melhor deixar tudo como está? Ninguém ganhará nada mexendo em uma história que já acabou.
– “Acabou”, uma ova! – O tom da voz de Roger foi ainda mais seco que de hábito. – Acha que voltou por quê? A passeio? Quer vingança. Conheço esse tipo de gente.
Calei-me. Estava confusa. Preferia que não tomassem nenhuma iniciativa, mas a preocupação deles tinha algum fundamento. Eu não me havia esquecido das atitudes de João. Mas onde estava o ódio que se esperava de mim? Os dois saíram e eu fiquei andando de um lado para o outro. Iriam procurar João com más intenções. Seria correto deixar? E seria sensato tentar ajudá-lo? Logo a ele?
Não. Sensato, não seria. Mas dirigi-me à garagem. Sabia de um lugar onde talvez o pudesse encontrar.

(Passarinho é composto de 7 capítulos.)